Perdão das ofensas

Tereza Cristina D'Alessandro

de Ribeirão Preto, SP

O que significa, realmente, perdoar?

O Apóstolo Paulo, em mensagem inserida em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" afirma que: "Perdoar aos inimigos é pedir perdão para vós mesmos; perdoar aos amigos é dar prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar que se melhora, Perdoai pois, meus amigos, para que Deus vos perdoe. Porque se fordes, duros, exigentes, inflexíveis, se guardardes até mesmo uma ligeira ofensa, como quereis que Deus esqueça que todos os dias tendes uma grande necessidade de indulgência?"

Compreendemos a verdade dessa afirmação, porém deparamos com a dificuldade em aplicar o perdão, porque ao nos sentirmos vítimas, baseamo-nos em razões "que a própria razão desconhece".

Nosso conceito de perdão tem influência decisiva nessa dificuldade; esse conceito tanto pode facilitar quanto limitar nossa capacidade de perdoar.

Por possuirmos crenças negativas de que perdoar é "ser apático" com os erros alheiros, ou mesmo, aceitar de forma passiva tudo o que os outros nos fazem, é que vivemos achando que perdoamos, aceitando agressões, abusos, manipulações e desrespeito aos nossos direitos e limites pessoais, ficando, pois, impassíveis como se nada estivesse acontecendo.

Perdoar não é apoiar comportamentos que nos tragam dores físicas ou morais, não é fingir que tudo corre bem, quando percebemos o contrário a nossa volta. Perdoar não é "ser conivente" com as condutas inadequadas.

Perdoar é compreender amplamente o outro, seus limites, suas razões, sem abdicarmos dos nossos direitos e porque não, dos nossos limites também.

Perdoar é postura íntima, é modo de viver!

Normalmente confundimos o "ato de perdoar" com a negação dos próprios sentimentos, emoções e anseios, reprimindo mágoas, usando supostamente o perdão, como desculpa para fugir da realidade que se, assumida, poderia alterar toda uma existência.

Para perdoar é preciso saber avaliar, ajuizar. Toda opinião ou juízo emitido por nós, assim como nossas tendências ou pensamentos julgadores, estão sedimentados em experiências passadas, são resultados de uma série de conhecimentos que adquirimos desde a infância e também através de vivências pregressas.

Censuras, observações, superstições, preconceitos, opiniões, informações e influências do meio, ou mesmo de instituições diversas, formaram em nós um tipo de reservatório moral - coleção de regras e preceitos - a ser rigorosamente cumprido, do qual nos servimos para concluir e catalogar as atitudes em boas ou más.

Utilizamos este reservatório moral para julgar as pessoas, desconsiderando um aspecto muito importante: julgar uma ação é diferente de julgar a pessoa.

Como estabelecer esta diferença?

Utilizando a regra de ouro ditada por Jesus: Fazer ao outro o que queremos seja feito para nós, ou seja, usar a empatia, colocando-nos no lugar do outro, "sentindo e pensando como ele" em vez de "pensar a respeito" e teremos o comportamento ideal frente aos atos e atitudes alheios.

Uma das ferramentas básicas para alcançar o perdão real, é conseguir manter uma certa "distância psíquica" do problema, ou da discussão, bem como diálogos mentais, que giram constantemente no nosso psiquismo, por estarmos engajados emocionalmente em envolvimentos desequilibrantes.

Em muitas ocasiões, elaboramos interpretações exageradas de suscetibilidade e caímos em impulsos estranhos e desconexos que dificultam o perdão, somente desligando-nos da agressão ou do desrespeito ocorrido é que o pensamento sintoniza com faixas superiores, no processo denominado "renovação da atmosfera mental" ou "mudança de sintonia".

É necessário portanto desligar "mentalmente" e emocionalmente, de fatos ou pessoas em desequilíbrio e a prece, é sempre método eficaz, a restaurar os sentimentos de paz e serenidade. Desligar-se não é tornar-se frio, insensível, e sim, deixar de alimentar-se das emoções alheias.

Ao soltar-se dessas situações problemáticas, complexas, o ser humano desata-se de fluidos envolventes, liberta-se de conflitos, tendo chance de enxergar o outro, ou a vida com visão mais ampla, conseguindo compreender a si mesmo e aos outros.

Viver impondo "distância psicológica" às pessoas e as coisas problemáticas, sejam entes queridos difíceis, ou companheiros complicados, não significa que deixamos de nos importar com eles, de amá-los, mas sim viver sem nos desequilibrar pelas emoções dos outros. Além disso, esse desligamento, motiva ao perdão do coração, com maior facilidade, devido ao grau de libertação mental que nos induz a viver sintonizados com a nossa própria vida.

A ausência de mágoa e o esquecimento da ofensa é que estabelecem a diferença entre o perdão dos lábios e o perdão do coração. E não podemos nos esquecer que o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos, muito mais que pelas palavras.

Nossa meta é aprender a não nos sentirmos ofendidos, e aprender a perdoar é uma das etapas deste processo.

Bibliografia:

(Jornal Verdade e Luz Nº 185 de Junho de 2001)