"Jeitos" diferentes de aprender

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

de Ribeirão Preto, SP

A questão da importância do convívio social para o progresso e evolução das pessoas, tem sido amplamente tratada nos meios da Educação; como também na Doutrina Espírita, quando então soma-se a isso o fato de se reconhecer as pessoas como Espíritos imortais.

Encontramos no Livro dos Espíritos¹ muitas passagens salientando o valor do contato social. "O homem deve progredir, mas sozinho não o pode fazer porque não possui todas as faculdades: precisa do contato dos outros homens. No isolamento, ele se embrutece e se estiola. Nenhum homem dispõe de faculdades completas e é pela união social que eles se completam uns aos outros, para assegurarem seu próprio bem estar e progredirem. Eis porque, tendo necessidade uns dos outros, são feitos para viver em sociedade e não isolados." (perg. 768).

Na área da Educação, Psicologia e Psicopedagogia, muitos estudos têm surgido, buscando ampliar nosso conhecimento sobre como e porquê o aprendizado ocorre a partir das relações sociais que mantemos.

Alicia Fernández², uma Psicopedagoga argentina, tem trazido enormes contribuições para esta questão. Uma delas diz respeito ao seu estudo sobre as diferentes Modalidades de Aprendizagem, que são formas diferentes que cada um tem de aprender, construídas no decorrer de sua vida, a partir da sua relação com diferentes pessoas, que por sua vez, apresentam diferentes modalidades de ensinar, sem mesmo se dar conta disso.

Vivemos num mundo de relações sociais, sendo que tudo que aqui aprendemos passa por um outro de alguma forma, ou pessoalmente, ou através de alguma "marca" que este outro fez: um livro, uma história, etc… Isso ocorre desde nosso nascimento, quando então passamos a fazer parte de uma família.

Nessa família circulam alguns modos de ensinar, de se lidar com as pessoas e crianças. Principalmente em relação ao desconhecido, àquilo que precisa ser descoberto, àquilo que está a espera de uma descoberta. Isso ocorre ainda na escola, como também num âmbito social maior.

Se se esconde, se exibe, ou se nega que há algo a ser descoberto, a procura e o prazer por essa descoberta ficará dificultada, e por vezes, até impossibilitada.

Devemos procurar nos perguntar, na nossa relação diária com as crianças, quando elas nos fazem uma pergunta sobre qualquer fato ocorrido, como respondemos? Que tipo de coisas escondemos delas? Que coisas respondemos com pequenas mentiras? E quanto a respostas extremamente técnicas com informações demais?

Quando mentimos, estamos ocultando aquilo a ser descoberto, talvez com as melhores intenções. Mas e as conseqüências disso?

Quando exibimos conhecimentos técnicos demais (por exemplo quando explicamos com detalhes biológicos e médicos a reprodução humana, com tantos termos que fica difícil à criança relacionar todos eles para fazer algum sentido a nossa resposta, quando o que ela queria era bem mais simples que isso), que conseqüências isto terá para a atitude dela de perguntar, quando novas dúvidas surgirem?

Quando se mostra alguma coisa (responde diretamente àquilo que é perguntado), guardando outras (aquilo que ainda não foi, naquele momento, objeto de atenção da criança), você abre o campo para que surjam novas perguntas, questionamentos, necessários para a construção do conhecimento, que se transformará no saber. Até porque não temos todas as respostas.

Alicia Fernández² diz que "a ‘fábrica’ dos pensamentos não se situa nem dentro nem fora da pessoa; localiza-se ‘entre’." Está nesse exercício do pensar, do perguntar, do trocar, do construir…

A partir destas experiências, a criança vai formando um jeito especial de lidar com aquilo que é desconhecido, e que ela vai aprender.

Acostumada a mentiras, ela pode desenvolver uma forma de pensar típica de quem não se percebe no direito de ter acesso àquelas informações; acostumada a ter informações demais sem estar pronta para aquilo, pode surgir o desinteresse…

Mas quando está acostumada com respostas que a levem a construir novos conhecimentos, estará pronta para seguir perguntando: O que? Como? Quando? Por quê?

Kardec sempre salientou a importância de um olhar curioso e crítico sobre tudo, exemplo dele mesmo em seu trabalho com a Codificação da Doutrina Espírita.

Não basta só estar junto às crianças para que este olhar se desenvolva, é preciso que estejamos atento sobre estas formas de ensinar, que adotamos cotidianamente, mesmo quem sem perceber.

O exercício de pensar sobre as questões das crianças, de escolher a melhor maneira de respondê-las, de ter esta atitude coerente durante toda a vida, acaba trazendo enormes benefícios para nós mesmos, pois implica mudanças na nosso própria forma de aprender, na nossa modalidade de aprendizagem.

Aprendemos a ser curiosos, a querer saber mais e buscar sempre a resposta que melhor nos satisfaça. Implica uma mudança íntima naquilo que de mais valioso temos: a possibilidade de crescer, de aprender, de nos tornarmos melhor, trazendo junto aqueles que convivem conosco.

Bibliografia:

  1. KARDEC, A. O Livro dos Espíritos
  2. FERNÁNDEZ, A. Os Idiomas do Aprendente, Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

E-mail da autora: verdeluz.marlene@bol.com.br

(Jornal Verdade e Luz Nº 184 de Maio de 2001)