Uma questão de afinidades

Orson Peter Carrara

O grave momento vivido pelo planeta indica bem as necessidades evolutivas de seus habitantes. Carências espirituais ficam escancaradas por ausência de conquistas, mesmo, mostrando tudo o que falta fazer para o aprimoramento individual e coletivo. E são carências que se tornam difíceis desafios, convocando os homens a permanente trabalho de reavaliação de valores e comportamentos, ao mesmo tempo fazendo-os refletirem sobre si mesmos e a voltarem-se para as dificuldades alheias que se avolumam ao seu redor, pois que passam a perceber que se não se movimentarem em favor da sociedade não conseguirão alcançar um pouco de paz e tranqüilidade.

Estes enormes desafios sociais provocam indignação em alguns, revoltas em outros, incredulidade em muitos e felizmente despertam muitos outros para o despertar da solidariedade.

Mas, pergunta-se: "Como é possível tudo isto?" ou "Onde está Deus?" e afirma-se: "Deus não é justo; abandonou-nos, expondo-nos à violência, esquecendo-nos ..." Estas questões eu mesmo as ouvi um dia desses, numa estação rodoviária. Infelizmente, já à hora do embarque, não foi possível dialogar com as duas pessoas que conversavam entre si, reafirmando sobre as aparentes injustiças do planeta. Diziam, reclamando da má sorte, que "...Deus dá tudo para um e nada para outros, e ao mesmo tempo tem permitido este mundo de extremos, abandonado o homem, expondo-o à violência crescente..."

Breve consulta aos códigos doutrinários da Codificação Espírita, porém, aclara o raciocínio, explica os "porquês", alivia o coração e ainda oferece roteiros de mudança dos atuais painéis evolutivos. E considere-se que são vários os ângulos que podem ser citados e estudados para serem devidamente compreendidos.

Didaticamente, separemos alguns itens:

  1. Conhecendo a ESCALA ESPÍRITA (itens 100 a 113 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS - especialmente itens 101 a 106 - Terceira Ordem - Espíritos Imperfeitos), saberemos que os espíritos estão em diferentes níveis evolutivos e que, portanto, por conseqüência direta, estando encarnados ou desencarnados (e aqui abrimos outro precedente - o da permanente influência sobre os homens, conf. perg. 459 do mesmo citado livro), apresentam e usam aquilo que possuem dentro de si, ou seja, as conquistas já alcançadas, tanto em nível moral como intelectual. Fica evidente a compreensão sobre o estágio dos espíritos ligados ao planeta.
  2. Considerando ainda o princípio doutrinário sobre a PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS (perguntas 55 a 58 da obra citada), concluiremos que a diversidade, ou desigualdades evolutivas, também situa os mais ou menos iguais em habitações compatíveis com seu estado evolutivo. E também somos levados aqui a considerar a existência de planetas ou habitações mais evoluídas, desconhecidas dos homens da Terra, em padrões ainda inacessíveis para comparações ou afirmações sólidas. Como indicação de estudo, levamos o leitor ao capítulo III de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, onde o Codificador utiliza-se da afirmação de Jesus: "Há muitas moradas na Casa de meu Pai", para apresentar importantes considerações sobre as diferentes categorias de mundos habitados, inclusive colocando no citado capítulo duas mensagens do Espírito Santo Agostinho e um resumo do ensinamento dos espíritos superiores. É extremamente consolador estudar as condições sobre os planetas mais adiantados que a Terra.
  3. Há ainda a questão da JUSTIÇA. As condições atuais do planeta nada mais são que a conseqüência do comportamento humano. Nos atributos de Deus (perg. 13 de O LIVRO DOS ESPÍRITOS), encontramos que, entre outros qualificativos, Deus é soberanamente justo e bom. Nada há de errado com o planeta, a não ser a teimosia humana em permanecer no egoísmo, na exploração do próximo, no uso do orgulho e demais paixões que degradam a condição humana. É justo que continuemos nessas condições, se ainda não vencemos os inimigos interiores que trazemos no coração. Quando o fizermos por merecer, o planeta melhorará.
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A destinação humana é a perfeição, o progresso, a felicidade. Porém, ninguém conserta ninguém. Podemos ajudar alguém ou ser ajudado por outrem, mas a mudança interior, definitiva, é de alçada pessoal, por iniciativa própria.

Se alguém pudesse consertar alguém, o planeta já estaria renovado, pois o Mestre já teria nos "consertado". Ocorre que, respeitando nossa liberdade, trouxe o ensinamento, exerce permanente influência sobre o planeta, esperando, contudo, nossa renovação, a partir de decisão e esforço próprios. O mais interessante dessa postura de Jesus é o mérito da felicidade que cada um vai alcançar por si mesmo.

Portanto, a questão da situação do planeta é uma questão de afinidades espirituais, de nível evolutivo. Estamos todos ali, mais ou menos no mesmo ponto de necessidades. Felizmente, ao nosso lado, também caminham grandes almas, estimuladoras de nosso progresso, encarnadas ou não.

Aos pessimistas com a situação do planeta, tomo a liberdade de transcrever trecho do capítulo III, item 6, de O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO:

"Admira-se de haver sobre a Terra tantas maldades e tantas paixões inferiores, tantas misérias e enfermidades de toda sorte, concluindo-se que miserável coisa é a espécie humana. Esse julgamento decorre de uma visão estreita, que dá uma falsa idéia do conjunto. É necessário considerar que toda a humanidade não se encontra na Terra, mas apenas uma pequena fração dela. Porque a espécie humana abrange todos os seres dotados de razão que povoam os inumeráveis mundos do Universo. Ora, o que seria a população da Terra, diante da população total desses mundos? Bem menos que a de um lugarejo em relação a de um grande império. A condição material e moral da humanidade terrena nada tem, pois, de estranho, se levarmos em conta o destino da Terra e a natureza de sua população".

Aos otimistas e idealistas do estudo e divulgação espírita, o convite à continuidade das tarefas abraçadas, pois que do texto acima (transcrição e nossas considerações), em breve comparação, há a convicção de que podemos enquadrá-lo também na diversidade humana encontrável nas Casas Espíritas, onde as diferenças de comportamentos (individual e coletivo) passam pelas mesmas observações, convidando-nos a compreender as desigualdades evolutivas (inclusive das instituições) e a velha questão das afinidades...