Silêncio Impossível

Amélia Rodrigues

O progresso marcha, lenta ou aceleradamente, e ninguém o pode deter. É o processo natural da vida, que evolui sistematicamente sem nunca parar. O repouso, por isso mesmo, e a inércia não fazem parte dos seus quadros.

O mesmo ocorre com a verdade. Não pode ser impedida, porque o seu fluxo, o seu curso, é inestancável.

Quanto mais lúcida a civilização, mais claro se lhe desvela o conhecimento da verdade, ultrapassando o chavão comum, que fala a respeito daquela que é de cada um. Expande-se e, mesmo quando sombreada pelos cúmulos dos preconceitos e dos comportamentos arbitrários, rompe o aparente impedimento e brilha com todo o esplendor.

A verdade é única, embora sejam conhecidas apenas algumas das suas faces; particularmente aquelas que podem ser aceitas sem muitas discussões ou querelas.

As palavras, que pretendem apresentá-la ao mundo e às pessoas, não poucas vezes, alteram-na, confundem quem a busca, divide-a em ideologias e interpretações, causando dificuldades e problemas.

Dela se utilizam todos os indivíduos conforme a estrutura mental e o interesse moral de cada qual.

Matam em seu nome, embora ela proceda do Amor; personagem sob a sua bandeira, apesar de expressar-se como paz; confundem-na, mediante os seus textos, e a sua proposta é clara quão universal; preparam, seguindo as regras da interpretação que lhe concedem, mesmo originada do pensamento unívoco de Deus...

Todas as pessoas pretendem possuí-la, e quando pensam detê-la, ou querem retê-la, eis que escapa e expande-se.

Buscam asfixiá-la em um lugar e ressurge noutro.

Imbatível, termina por impregnar as mentes e acolher-se nos corações.

A verdade é transparente como a luz diáfana do amanhecer; é vida que nutre e pão que alimenta.

A verdade procede de Deus e a Ele conduz o pensamento, as realizações e os seres.

Por isso, é impossível o seu silêncio.

A inquietação é inimiga da serenidade, e esta resulta do conhecimento da verdade.

Na quietude da meditação e no recolhimento do trabalho, ei-la que se expressa, abrindo espaço para a iluminação.

Para perpetuá-la no seu conteúdo espiritual os místicos e santos de todos os tempos retiveram-na em indumentárias delicadas: contos, koans, lendas, e Jesus apresentou-a em encantadoras parábolas.

Os homens, em diferentes épocas, temiam-na, e, por isso, não a aceitavam desnuda. Mas a recebiam, para o entendimento, quando adornada de fantasias, de fábulas, de símbolos.

Naquela circunstância era necessário que todos a conhecessem na sua apresentação legítima: o fato consumado, inegável.

Todos quantos ali estavam viram-na e comoveram-se. Talvez não a entenderam.

Por isso, apelaram para os envoltórios, a que se acostumaram.

O coxo andara e prosseguia andando. Não se tratava de um impressionável adolescente, mas, sim, de um homem de quarenta anos, maduro, que sabia discernir, e dava o testemunho: - Eu era limitado; agora ando.

Este o fato: a verdade inconfundível!

Há pessoas que preferem ignorar a verdade, porque aceitá-la é ver-se na encruzilhada da decisão. Não mais pode ser como anteriormente, receando mudar e não possuir forças para prosseguir. Essa energia, no entanto, haure-se nela mesma, que impulsiona para a frente, que sustenta no desempenho a vivência dos seus postulados.

Adiá-la, significa prosseguir na ignorância, sofrer, quando se torna possível ser feliz.

Jesus afirmou que a verdade liberta, porque desalgema, dignifica, impondo responsabilidade e dever, que são as suas primeiras conseqüências.

Pedro e João conviveram com o Mestre, que a expressara nas palavras, na conduta e na autodoação.

Pedro fora vítima da própria defecção por fragilidade moral, porém, sustentado por ela reergueu-se e tornou-se seu embaixador.

Com o jovem amigo, que a tinha iluminando-o interiormente, pôs-se a apresentá-la de forma incorruptível. Agora era a hora de confirmá-la.

A notícia do feito alcançou os ouvidos das torpes e atormentadas autoridades da governança.

Receosos do efeito do acontecimento, tomaram providências, mandando seus esbirros aprisionarem os dois humildes galileus que provocavam tal reboliço.

Temiam que o fermento do bem levedasse a massa informe e ameaçasse a sua dominação inescrupulosa.

A alternativa para a sua mesquinhez era o poder da força.

E mandaram ao cárcere os inimigos em potencial conforme via sua óptica distorcida.

Sempre se repete a cena da covardia: intimidar a verdade, ameaçando ou vencendo aqueles que a apresentam. Porque não a podem vencer, buscam silenciá-la, inutilizando os seus porta-vozes.

Já era tarde quando os prisioneiros foram trazidos ao Tribunal, e por isso mesmo, foram arrojados ao cárcere até o dia seguinte, quando os submeteram a interrogatório diante do recuperado paciente, que prosseguia saudável.

Novamente mediunizado, Pedro enfrentou os algozes e não se deixou atemorizar ou confundir ante os hábeis sofistas enganadores do povo.

Haviam sido presos, porque fizeram o bem em nome de Jesus Cristo.

- Ele - afirmou o Apóstolo - é a pedra, desprezada por vós... Não há salvação em nenhum outro (*)... porque dentre os homens Ele é o maior.

Havia altivez no porte e exatidão no verbo.

Assombraram-se os pusilânimes e tomaram a atitude que lhes era habitual: conciliar-ameaçando, libertar-intimidando.

Assim, num conluio infame resolveram proibi-los de referir-se a Jesus, o Cristo.

Não detectaram nos discípulos do Rabi qualquer crime ou erro passível de punição, mas também por medo do povo, que glorificava a Deus, do que por outra razão.

Responderam-lhes, então, os interrogados:

- Se é justo diante de Deus ouvir-vos antes do que a Deus, julgai-o; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.

O silêncio era-lhes impossível.

Podiam perder o corpo; mas com a verdade ganhavam a vida.

Não se pode deixar de mencionar a verdade que decorre do encontro com os seus conteúdos.

As perseguições chegariam, mas a verdade permaneceria também, sem jamais ser abafada...

(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, em 26/07/1996, em Paramirim, Bahia).

(*) Atos - 4: 1 a 22. (Nota da Autora espiritual.)

(Jornal Mundo Espírita de Agosto de 1997)