Pugnas, inúteis pugnas!

Rogério Coelho

"Só a tolerância lobriga ensinar com eficiência e conduzir com sabedoria."
M. Ribeiro(1)

Humberto de Campos(2) conta-nos a história de um livre pensador chamado Raimundo de Anunciação, que não se furtava ao vício das discussões sem proveito definido. Polemista contumaz, transformou-se em um espinheiro vivo, atormentando a Vida de todos à sua volta, mais parecendo uma pilha humana em permanente irritação contra tudo que não se enquadrasse em sua "cartilha" pessoal.

Provocador e intolerante, não perdia oportunidade para "açoitar" as pessoas com palavras contundentes e ferinas; enxergava o mundo com a lente desfocada de soez incompreensão, matizada por inflamada ira.

Por mais que algum companheiro sensato lhe chamasse a atenção, não conseguia demovê-lo do ponto de vista onde se acastelara numa superlativa rebeldia, não se oferecia nunca o esforço de maiores exames.

Nem mesmo sua mãezinha, já às portas da morte, logrou modificar o caráter do filho, baldados foram os conselhos.

Finalmente, guindado pela morte, Raimundo aporta no Mundo Maior. O Mentor espiritual encarregado de recebê-lo, após exame minucioso das cópias das anotações de seu "dossiê", maneou a cabeça e comunicou-lhe que, das 464.000 horas que viveu na Terra, sobraram apenas 200.000 horas que ele empregara em discussões improdutivas, porque as demais foram gastas em sono, trabalho profissional, passeios, repouso e distrações.

Nosso amigo ainda tentou argumentar uma réplica com o Benfeitor, mas, frente aos fatos apresentados, não teve outra alternativa senão render-se à triste evidência: perdera oportunidade de progresso naquela reencarnação recém finda, empregando em arengas inúteis o tempo destinado à elevação espiritual.

Por dez anos consecutivos entrou em vastas meditações da Verdade e da Vida, sempre auxiliado pelos bondosos Benfeitores Espirituais, findos os quais, suplicou nova experiência somática na Terra. E, para não faltar desastrosamente como antes, solicitou o seguinte aos Amigos Espirituais:

"Desejo ser mudo entre os meus adversários de outros tempos."

Muito bem - exclamou o Mentor -, é a tarefa compatível com as suas necessidades atuais. Você nascerá mudo e com ótimos ouvidos, porque, segundo sua ficha de tempo, não lhe será possível entregar-se a qualquer realização mais elevada, enquanto não permanecer em silêncio por 200.000 horas, escutando para entender, e impossibilitado de falar coisa alguma".

Fica fácil, agora, entender uma dedução lógica: Pelo enorme contingente de criaturas belicosas, despóticas e discutidoras que existe atualmente, pode-se, sem margem a equívocos, fazer uma previsão de uma larga safra de bebês nascendo mudos daqui a algum tempo!

Para evitar tal hecatombe eminente, Marcelo Ribeiro(1) dá-nos um alerta, em uma belíssima página intitulada:

COMBATE INTRANSFERÍVEL

O despotismo que cerceia a liberdade faz-se algoz de si mesmo. Em conseqüência, o dominador arbitrário torna-se dominado pelas paixões e circunstâncias que o envolvem.

Somente a fraternidade que flui do amor compreendido consegue doar liberdade, ensejando um clima de respeito e compreensão que promove o progresso entre os homens.

A intolerância, que impõe códigos de comportamento e limita o direito de pensar e agir, comete desmandos e exageros, sendo vencida por força equivalente, na justa das ambições desmedidas.

Apenas a solidariedade, mediante o auxílio mútuo, constrói valores de excelente qualidade, que fomentam o enriquecimento moral e social, propiciando paz.

O Sol brilha para todos. Tudo e todos têm direito à Vida.

O que pode ser muito bom para uns, quiçá não seja o melhor para outros.

De muito bom alvitre que se faça uma aferição de valores entre o que se sabe e o que os outros sabem, o que se conhece e é pelos demais conhecido, o que lhe é útil e para muitos desnecessário, a fim de se ter uma idéia realista das opiniões e conceitos, coisas e pessoas.

Os homens estagiam, pelo próprio processo de evolução pessoal, em degraus e escalas, sendo necessário compreendê-los onde se encontram e conforme são.

Aqueles que possuímos uma mensagem de renovação e esperança para dar, devemos, melhor do que outros, compreender que o nosso labor se baseia no perfeito equilíbrio em prol de uma divulgação lavrada na simpatia e na gentileza.

Não nos propomos combater as demais pessoas ou as suas idéias, ou a sua forma de ser. Antes, nos candidatamos a expor os nossos temas, aqueles que nos felicitam, interessando, os que nos ouvem e veem a examinar as nossas informações, optando pelo que lhes pareça melhor.

Pugnadores da Verdade, sabemos que ela não se contém, total, no nosso enfoque de como considerar a Vida, reconhecendo que, talvez, a nossa, seja uma visão melhor e mais clara, de modo a resolver inúmeros problemas que aturdem a Humanidade.

Exercitando-a, ampliamos a capacidade de entendê-la, facultando-lhe o crescimento em nós, e crescendo com ela.

Assim considerando, recordemos que numa discussão sempre se podem encontrar três colocações sobre a Verdade: a de um como de outro litigante, que são sempre pessoais, e aquela que paira acima dos indivíduos, a legítima e transcendental, que examina fatores ignorados, causas desconhecidas e motivadoras da ocorrência em pauta.

É urgente que estejamos conscientes da obra a realizar em nós mesmos, primeiro, como combate intransferível e imediato, a fim de irmos adiante.

O próprio Jesus, que conhecia a verdade, jamais a impôs, nunca entrou em lutas verbalistas injustificáveis, não se deteve a combater contra.

O seu, foi o combate a favor do bem de todos, com amor, sem despotismo, nem intolerância, ou exigência, ensinando o amor e amando com esperança no êxito final."

Allan Kardec, talvez prevendo que os arraiais espiritistas não estavam infensos a essas ocorrências, inseriu em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" uma página de um Espírito que se deu a conhecer simplesmente por Luis(3):

"Desconfiai dos que pretendem Ter o monopólio da Verdade!...

Não, não, o Cristo não está entre esses, porquanto os que Ele envia para propagar a Sua santa doutrina e regenerar o Seu povo serão, acima de tudo, seguindo-Lhe o exemplo, brandos e humildes de coração; os que hajam, com os conselhos e exemplos que prodigalizem, de salvar a Humanidade, que corre para a perdição, serão essencialmente modestos e humildes.

Ide, portanto, meus filhos bem-amados, caminhai sem tergiversações, sem pensamentos ocultos, na rota bendita que tomastes.

Vós que haveis bem desempenhado a tarefa que o Criador confia às suas criaturas, nada mais tendes de temer da Sua justiça."

Conduzamo-nos, pois, com sabedoria, ensinado com eficiência nas águas mansas da tolerância incondicional.

1 - Marcelo Ribeiro/Franco, D.P. in "Terapêutica de Emergência" - Capítulo 43

2 - Humberto de Campos/Xavier, F.C. in "Reportagens do Além Túmulo" - Capítulo 8

3 - Kardec, A in "O Evangelho Segundo o Espiritismo" - Capítulo XXI, item 8, § 3º e seguintes.

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)