Pródromos da terceira explosão da onipotente bondade

Rogério Coelho

"Eu rogarei ao Pai e ele vos dará o outro Consolador."

Todos os grandes movimentos de regeneração do Espírito humano tiveram o que podemos chamar de "rudimentos premonitórios", que, de certa forma, lhes antecederam o advento.

A estrada pavimentada e bem sinalizada onde - lépidos e fagueiros - viajamos através da Ciência, Filosofia e Religião Espíritas, recebeu, através dos milênios que se perdem na noite dos tempos, o concurso dos trabalhadores que preparavam cada etapa, desde os trabalhos rudes e ingratos dos pioneiros até os quintessenciados dos tempos hodiernos, onde vanguardeiros de valor - abnegadamente - se esfalfam no mister da divulgação do Espiritismo, que outra coisa não é senão o "Consolador" que o Pai Celestial nos deu pela intermediação de Jesus.

Moisés e outros que o antecederam foram os trabalhadores da base e através dos milênios seguiram-se outros mais ou menos evidenciados pela História, como Sócrates e Platão, que larga contribuição doaram em favor da estruturação dos tempos novos. João Batista preparou os caminhos, endireitando-os para o Mestre Maior: Jesus!... E Ele, por Sua vez, anunciou o advento do outro "Consolador" que viria, mais tarde, aplacar a sede de conhecimentos e pensar as chagas purulentas causadas pelo egoísmo e pela ignorância.

Há tempo para tudo, conforme diz o Eclesiastes. Quando chega o tempo do surgimento de mais um capítulo na história da evolução do homem, os sinais precursores não se fazem esperar . Os fenômenos que antecederam o eclodir da Terceira Revelação se fizeram sentir no tempo próprio.

É interessante verificarmos como o "ambiente" fica impregnado com as vibrações do acontecimento que virá.

Assim, não nos causa surpresa a publicação levada à lume em 1821 e inserta na "Revue Spirite" do mês de abril de 1867, intitulada: "Soires de Saint-Petersbourg", de autoria do conde Joseph de Maistre, onde, em certa altura ele narra:

"(...) Vossos missionários sem dúvida fizeram maravilhosos esforços para anunciar o Evangelho nalgumas dessas regiões longínquas, mas vedes com que sucesso! Quantas miríades de homens que a Boa Nova jamais atingirá ! Não está expulso inteiramente da África e da Ásia o Cristianismo? E em nossa Europa, que espetáculo se oferece ao olho religioso!... (Segundo recentes estatísticas, na França, por exemplo, apenas 3% da população possui religião).

Contemplai esse quadro lúgubre; juntai a espera dos homens escolhidos, e vereis se os iluminados estão errados ao encarar como mais ou menos próxima uma terceira explosão da onipotente bondade em favor do gênero humano" (tornamos a lembrar que essas palavras foram escritas em 1821, e o Espiritismo codificado data de 1857).

"Eu não terminaria"- continua o conde - "se quisesse reunir todas as provas que se reúnem para justificar essa grande espera. Ainda uma vez, não censureis as pessoas que disto se ocupam e que vêem na Revelação as mesmas razões para prever uma revelação da revelação." (Bem entendido que ele está se referindo ao Cristianismo e ao Espiritismo, respectivamente, porque o Espiritismo é na verdade uma Revelação da Revelação que é o Cristianismo).

"Se quiserdes, chamai esses homens de iluminados; estarei inteiramente de acordo convosco, desde que pronuncieis este nome seriamente.

Tudo anuncia, e vossas observações o demonstram, não sei qual a grande unidade para a qual marchamos a grandes passos .

Não podeis, pois, sem vos pôr em contradição convosco, condenar os que de longe saúdam esta unidade e tentam, conforme suas forças, penetrar mistérios tão terríveis, sem dúvida, mas ao mesmo tempo tão consoladores para nós.

E não digais que tudo está dito, que tudo está revelado e que não nos é permitido esperar nada de novo. Sem dúvida, nada nos falta para a salvação. Mas, do lado dos conhecimentos divinos, falta-nos muito; e quanto às manifestações futuras, como vedes, tenho mil razões para confiar, ao passo que não tendes nenhuma para me provar o contrário .O hebreu que cumpria a lei não estava em segurança? Citaria, caso fosse preciso, não sei quantas passagens da Bíblia que prometem ao sacrifício judaico e ao trono de David uma duração igual à do Sol. O judeu, que se mantinha na casca, tinha toda a razão, até o acontecimento, de crer no reino temporal do Messias; nada obstante, enganava-se, como se viu depois. Mas sabemos o que nos aguarda a nós mesmos? Deus estará conosco até a consumação dos séculos? As portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja? Muito bem! Pergunto-vos: disso resulta que Deus se interdita toda manifestação nova e não Lhe é permitido ensinar-nos nada além do que sabemos? Força é confessar que seria um estranho argumento.

Sendo uma nova efusão do Espírito-Santo, (entendemos do Espírito de Verdade ) para o futuro, no rol das coisas mais razoavelmente esperadas, é preciso que os pregadores desse dom novo possam citar a Escritura Santa a todos os povos. Os apóstolos não são os tradutores; têm muitas outras ocupações; mas a Sociedade Bíblica, instrumento cego da Providência, prepara suas diferentes versões, que os verdadeiros enviados explicarão um dia, em virtude de sua missão legítima, nova ou primitiva, não importa! Q ue expulsará a dúvida da cidade de Deus; e é assim que terríveis inimigos da unidade trabalham para a estabelecer."

Esse texto do conde suscitou o seguinte comentário de Allan Kardec:

"Essas palavras são tão notáveis quanto emanam de um homem de mérito incontestável como escritor, e que é tido em grande estima pelo mundo religioso. Talvez não se tenha visto tudo quanto elas encerram, porque são um protesto evidente contra o absolutismo e o estreito exclusivismo de certas doutrinas. Elas denotam no autor uma ampliação de vistas que frisam a independência filosófica. Muitas vezes a ortodoxia se escandaliza por menos. Sobretudo os Espíritas compreenderão facilmente o seu alcance.

Seria impossível não ver aí a previsão de coisas que hoje se passam e as que o futuro reserva à Humanidade, tanto essas palavras se relacionam com o estado atual e com o que, por todos os lados, anunciam os Espíritos."

"Os fenômenos que antecederam o eclodir da Terceira Revelação se fizeram sentir no tempo próprio."

(Jornal Mundo Espírita de Abril de 1998)