Dividir para Multiplicar

Jornal Mundo Espírita - Editorial de Março de 1999

“Depois disso designou o senhor outros setenta e os enviou adiante de si, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir”. - (Lc. 10,1)

Lembrando que se aplicam os mesmos princípios, quer para reuniões, quer para sociedades espíritas constituídas, Allan Kardec assim se manifestou sobre a importância dos pequenos grupos espíritas: “... No interesse dos estudos e por bem da causa mesma, as reuniões espíritas devem mesmo tender antes à multiplicação de pequenos grupos, do que à constituição de grandes aglomerações”. Ao propor este modelo administrativo (Livro dos Médiuns, cap. XXIX, item 334 e seguintes, “Das Sociedades propriamente ditas”), o Codificador estava formulando medidas preventivas aos problemas, os quais, de forma natural, adviriam às grandes Instituições espíritas, tanto quanto desenhava o perfil do porte ideal de Casa Espírita.

São suas as seguintes considerações sobre as vantagens de pequenos núcleos de trabalho espírita comparativamente às grandes organizações:

QUANTO AOS ASPECTOS DO ENTROSAMENTO, DA HARMONIA E DA AFINIDADE

“Nos agregados pouco numerosos se conhecem melhor e há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram.”

Nos grandes grupos, “a divergência dos caracteres, das idéias, das opiniões, aí se desenha melhor e oferece aos espíritos perturbadores mais facilidade para semearem a discórdia.”

“Quanto mais numerosa é a reunião, tanto mais difícil é conterem-se todos os presentes. Cada um quererá que os trabalhos sejam dirigidos segundo seu modo de entender; que sejam tratados preferentemente os assuntos que mais lhe interessam.”

“Alguns julgam que o título de sócio lhes dá o direito de impor suas maneiras de ver. Daí, opugnações, uma causa de mal-estar que acarreta, cedo ou tarde, a desunião e, depois, a dissolução, sorte de todas as Sociedades, quaisquer que sejam seus objetivos.”

QUANTO AOS ASPECTOS DA ADMINISTRAÇÃO E DO ESPAÇO FÍSICO

“As grandes assembléias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõem; exigem sedes especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo desnecessário nos pequenos grupos.”

“As pequenas reuniões apenas precisam de um regulamento disciplinar muito simples, para a boa ordem das sessões.”

QUANTO AOS ASPECTOS DA REPRESENTAÇÃO NO MOVIMENTO ESPÍRITA

“A queda de uma grande Associação seria um insucesso aparente para a causa do espiritismo, do qual seus inimigos não deixariam de prevalecer-se. A dissolução de um grupo pequeno passa despercebida e, ao demais, se um se dispersa, vinte outros se formam ao lado. Ora, vinte grupos, de quinze a vinte pessoas, obterão mais e muito mais farão pela propaganda, do que uma assembléia de trezentos ou quatrocentos indivíduos.”

“Os grupos pequenos jamais se encontram sujeitos às mesmas flutuações.”

QUANTO AOS ASPECTOS DO TRABALHO DA UNIFICAÇÃO

“Esses grupos, correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando observações, podem, desde já, formar o núcleo da grande família espírita, que um dia consorciará todas as opiniões e unirá os homens por um único sentimento: o da fraternidade, trazendo o cunho da caridade cristã.”

São lições aos grandes Centros Espíritas, ou àqueles que estão em franco crescimento, as quais os convidamos a uma releitura de seus planos futuros, reavaliando seu trabalho, a começar da qualidade dos serviços que estão sendo prestados, já que a disposição doutrinária é de atendimento personalizado, jamais massificado; depois, da complexidade da estrutura organizacional que se está fazendo necessária para se atender todas as atividades, aí considerando-se, também, o número crescente de trabalhadores que se faz preciso, e, por conseguinte, aos contratempos com recrutamento, preparo da mão-de-obra, freqüência e assiduidade dos colaboradores, aos quais, por serem voluntários, obviamente não se pode estabelecer um grau elevado de exigências, tanto quanto, em decorrência desse ir e vir e do número dos trabalhadores, não se consegue estabelecer adequado relacionamento entre todos os integrantes da Casa, o que facilita a formação de grupos dentro do grupo, que é uma das causas da quebra de unidade diretiva e desentendimentos pessoais, administrativos e doutrinários; acrescente-se, aqui, as rivalidades, as disputas, as dissensões; há, ainda, o aparelhamento físico da Instituição: construção, equipamentos, manutenção, conservação, ampliações periódicas, questões que fazem forte pressão financeira sobre a organização; quanto maior esta for exige dedicação quase que diuturna da administração em busca de recursos financeiros, a qual, conforme o tamanho da necessidade, vê-se induzida ao equívoco de lançar mão de meios não indicados doutrinária e legalmente, quando não, transformar-se em inveterada pedinte, forjando-se uma imagem negativa do Movimento Espírita entre os cidadãos da localidade (mais ainda nos dias atuais, quando tão relutante se faz a colaboração das pessoas às obras de benemerência, o que gera maiores dificuldades para arrecadação de dinheiro), até porque a manutenção da instituição é responsabilidade dos seus membros e não da comunidade; além de outros itens a serem pensados.

Isto é suficiente para demonstrar a sabedoria do conselho kardeciano, ao indicar pequenos grupos espíritas como modelo ideal ao Movimento Espírita, ou, se for o caso, o desdobramento de uma grande organização, em outras menores, espalhando-se estas pelas localidades (bairros ou cidades próximas), que ainda se encontrem desprovidas de Centro Espírita.

Olhando-se pelo âmago da questão, vislumbra-se, com adoção desse modelo institucional, um elenco de benefícios mais que suficientes para motivar certas organizações a promoverem o nascimento de mais outras Casas, dividindo-se para multiplicar, formando-se as respectivas equipes entre os integrantes de sua equipe maior, orientando-as, preparando-as, apoiando-as, assessorando-as, assistindo-as, mantendo-se unidas pelo trabalho e ideal comum, e deixando-as vivenciar suas próprias experiências na sucessão do tempo.